Interpretação

Pessoal

Interpretações, Significados e Análises de Letras de Músicas

Devaneios sobre "Os Cegos do Castelo", de Nando Reis

Nunca esperei que, ao ler no meu blog uma análise sobre uma canção sua, um músico dissesse que eu acertei o que ele quis dizer. Nem acho que seja possível. Eu escrevo o que eu sinto, as leituras que percebo e acho interessante. Significado de música é algo muito pessoal. Uma música pode ter vários significados para uma mesma pessoa. Arte é feita mesmo é pra se sentir, e como tudo que é baseado no que se sente, dela nunca pode ser extraída uma verdade absoluta.

E aí temos Os Cegos do Castelo. Muita gente já especulava que a música tratasse sobre Nando e o abandono do uso de drogas. A confirmação veio numa entrevista em que Nando fala sobre a teoria [1]. Até posso escrever sobre essa relação com as drogas depois. Mas, agora, eu queria ressaltar alguns aspectos muito importantes sobre o significado de uma música.

Muita gente chega ao blog na busca pelo real significado de uma música, querendo saber os porquês do letrista a ter escrito. Acontece que quando você escreve uma música, um poema, um texto, e outra pessoa lê ou escuta, o que você fez deixa de ser puramente seu. Passa a ser do mundo. Mesmo que Nando Reis em pessoa apareça na minha frente e diga que a música não trata sobre outra coisa além de drogas, pra mim, ele vai estar errado. Se eu não conseguir perceber ou sentir isso (e eu não estou dizendo que não sinto ou não percebo), não vai ter Nando Reis que me imponha esse significado.

A credibilidade que as pessoas sentem ao ler minhas interpretações é devido à existência dos significados que eu revelo. Eles existem. Como existem muitos outros. Uma música comporta muitas histórias. E é por isso que eu ainda vou analisar Os Cegos do Castelo, mesmo que o "significado real" já tenha sido revelado.

A INTERPRETAÇÃO

Pra mim, Os Cegos do Castelo é uma música que transmite, acima de tudo, esperança. Tem algo sobre perspectivas de vida nela, sobre seguir em frente. E seguir em frente implica necessariamente em superar algo que atrapalhava o caminho. Mas não é dessa pedra no caminho que a música fala, é do processo de superá-la. E talvez seja por isso que a letra comporte tantas interpretações.

O cenário que, imediatamente, cria-se em minha cabeça quando ouço Os Cegos do Castelo é de alguém que consegue vencer uma grande depressão. E talvez isso esteja relacionado com o uso de drogas, talvez não. Mas isso nem é algo tão importante para o sentindo geral que a canção busca passar. Então, vou explicar o que me endossa essa teoria de que o eu lírico passa por uma guinada em sua vida.

Eu não quero mais mentir / usar espinhos que só causam dor / eu não enxergo mais o inferno que me atraiu / dos cegos do castelo me despeço e vou / a pé até encontrar / um caminho, o lugar / pro que eu sou

Talvez essa estrofe seja a que mais explicite a questão do vício. Os espinhos seriam analogias para as drogas. Muitas vezes o consumo de drogas ilícitas, como muito ocorre com o álcool, é mais uma forma de escape do que qualquer outra coisa. É a passagem para um outro universo que não passa de uma mentira, mas que de alguma forma ainda é melhor do que o inferno que se vive aqui, no mundo real. Mas, então, o mundo aqui fora não parece mais tão ameaçador, e o eu lírio não quer mais essa fuga e todos os seus muitos efeitos colaterais.

Mas eu disse que não ia me deter à questão do vício. E não vou. É possível que pessoas que nunca provaram sequer maconha se identifiquem com a música, porque a ideia central é de alguém que acorda pra vida, que percebe que não dá mais pra continuar como está, seja lá como esteja. É de alguém que precisa - e vai - se encontrar.

Eu não quero mais dormir / de olhos abertos me esquenta o sol / eu não espero que um revólver venha explodir / na minha testa se anunciou / a pé a fé devagar / foge o destino do azar / que restou

E essa talvez seja a estrofe que mais me transmite a ideia de depressão. Bem, alguns depressivos gostam de dormir. Dormir, às vezes, se confunde com morrer temporariamente, mas é certamente sinônimo de não viver por algum momento. Não querer dormir, é querer aproveitar a vida, acordado, de olhos bem abertos, sentindo tudo, vivendo tudo. Tem também essa questão do revólver, de não esperar mais por isso, mais no sentido de não ter mais esperanças de que isso ocorra. Existe uma troca dos sentimentos suicidas por uma fé que, devagarzinho, como se andasse a pé, surgiu em sua cabeça.

Mas, claro, podemos tirar a depressão disso tudo e o sentido permanece o mesmo. Há vontade de mudar, de viver a vida, há fé, esperança.

E se você puder me olhar / e se você quiser me achar / e se você trouxer o seu lar / eu vou cuidar, eu cuidarei dele / eu vou cuidar do seu jardim / eu vou cuidar, eu cuidarei muito bem dele / eu vou cuidar / eu cuidarei do seu jantar / do céu e do mar / de você e de mim

E aí a música acaba com uma série de "E se". É interessante a ideia de adição que o "e" transmite. O eu lírico está decidido a sair do fundo do poço em que se encontrava. Isso não está condicionado a outra pessoa. Ele não sairá de lá se alguém estiver ao seu lado. Ele sairá e se alguém quiser ficar do seu lado, ele fará dar certo, ele cuidará dela, e cuidará mais dele também.


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12 comentários:

  1. Adoro ler teu blog. Também acredito que as interpretações das músicas são pessoais, por mais que haja seu significado único para quem a criou. E ao ouvir cegos do castelo, sinto todas as palavras que você disse e as sensações de Nando, que não consegue se conter cantando.

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    1. Oi, Anônimo!
      Muito, muito obrigada pelo comentário. Amo de paixão quando alguém comenta.
      E é verdade isso sobre o Nando e a emoção que ele deixa transpassar, mesmo sem querer.
      Enfim, comente sempre. Se se identificar, é ainda melhor.
      Beijos!

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    2. Thamirys, eu ouço essa música ao menos uma vez por mês, nos últimos 20 anos. Muito interessante seu texto... parabéns. Eu me apego muito ao seguinte sentido: muitas famílias fecham os olhos para diversos problemas entre seus membros. Vão de preconceitos de todas as formas, falta de atenção, falta de carinho, etc. "Dos cegos do castelo me despeço e vou"..

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  2. sempre ouvi essa música e imaginei que o sentindo era esse, sair do buraco (seja drogas, depressão ou qualquer outro problema) e você conseguiu transmitir exatamente isso. concordo plenamente que a interpretação é pessoal. e pra quem não concorda, vejam a entrevista do próprio Nando no Agora é tarde, onde quando perguntado sobre a letra de "segundo sol" explica exatamente que pra ele significou uma coisa, mas cada um senti de uma forma. e que o belo da música (ou das músicas) é isso. que vc toma pra si e senti da sua forma. outro exemplo é o do Sistem of a down que já falaram o mesmo sobre as próprias letras. adoro o blog, sou fã de Legião Urbana e amo rock e MPB. vida longa a esse blog maravilhoso

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  3. Espero que se lembre de mim!

    Eu gostei muito do Blog, de você e de suas interpretações justamente porque você consegue escrever muito bem o que você sentiu com a música. Dá para cada um sentir diversas coisas sim com cada obra, mas convenhamos, o autor escreve para passar um certo sentimento em especial, não importando os caminhos que você passe para chegar nele. O artista coloca na obra os sentimentos e nós nos identificamos com eles (o melhor, diga-se de passagem, rsrs, Renato), mas tem vezes que não conseguimos nos explicar direito esses sentimentos, com as palavras certas, com um caminho legal para chegarmos ao sentimento final que o artista tentou nos levar, é aí que as suas interpretações dão aquele empurrãozinho final, rsrs.

    Conheci o blog há alguns bons anos! :D
    Você fez grande diferença no meu modo de ouvir e sentir certas músicas e me ajudou a encontrar linhas de pensamento para poder sentir melhor outras músicas.

    Obrigado, parabéns com tudo e boa sorte na vida!!!

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    1. Guilherme, eu lembro, sim! Lembro muito.

      Que sensação boa que esse seu comentário me passa. Engraçado como pessoas que a gente nem conhece podem fazer diferença na nossa vida, não é? Você também fez diferença pra mim, cada comentário seu foi muito importante. E agora esse comentário em especial me deixou muito feliz. Não tenho nem o que dizer a respeito!

      Muito, muito obrigada!
      Beijos e abraços,
      Força sempre! <3

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  4. Esse blog é demais. Espero de Zé Ramalho. Suas interpretações são muito boas.

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  5. THAMIRYS sobre esta e quase todas músicas, existe uma quase regra, quando executadas em modo acústico, em estudio, só no violão/guitarra pelo seu autor original da letra, naturalmente com algum distanciamento da época do seu sucesso e da influência de audiência presente, GERALMENTE dá espaço a uma interpretação mais pessoal e intimista que é naturalmente e mais ligada e tende a realçar os fundamentos emocionais do autor dos VERSOS da música na interpretação.
    SEMPRE é bom VER este tipo de interpretação quando se busca a interpretação de uma música particularmente complexa ou obscura no seu sentido comum.
    Um aspecto que eu destacaria nesta letra de Nando Reis que qualquer ser humano que se envolve numa atividade que resulta em mentira e dor aos seus familiares gera uma DESCONFIANÇA ETERNA sobre si e pela descrença, ele chega eventualmente à beira da Depressão Suicida; com uma arma auto-apontada para sua testa. Seja por vício ou crime de qualquer natureza para sair desta situação na escuridão do abismo se precisa de uma LUZ.
    Ela que é a presença de ALGUÉM que ACREDITE no desesperado e este ao receber este FIAPO de luz de credibilidade, passa a saber que terá de CUIDAR de tudo e SEMPRE para se REDIMIR.
    Terá como sua carga eterna cuidar com atenção de TUDO e TODOS a sua volta pois ele sabe que eles estarão no fundo sempre temerosos que toda desgraça do passado volte para o presente. Prometer e ter a meta de cuidar de TUDO a sua volta é a primeira e última coisa que quem emerge do inferno tem e terá de fazer dali para frente.
    A interpretação do Nando na versão acústica deixa isso bem clara, pelo menos para mim.
    Beijos adorei teu blog vindo numa navegada atrás de uma letra de Zé Ramalho Chão de Giz que interpretaste em 2012 ! E para minha surpresa também adoro Renato Russo. Vou ter muito o que ler das tuas postagens antigas...
    Tenho 53 anos e talvez a Peleja com o Diabo com o dono do Céu tenha sido um dos discos mais significativos da minha vida musical e as letras de Renato Russo estão ali coladas no meu coração. Que pena ele e Cazuza não terem lutado contra a doença ao ponto de terem acesso ao coquetel anti-Aids que surgiu menos de 2 anos após as suas mortes. Quantas letras mais eles poderiam ter produzido se isso tivesse acontecido a TEMPO... UM pena...
    Hoje neste tempo de letras rasas este prazer de interpretar musicas fica cada vez mais difícil. Como disseste em algum lugar que pretendes ler O Adimirável Mundo Novo de Aldous Huxley eu te PROPONHO uma DOBRA de aposta com uma artista JOVEM fora da minha geração que pelas maravilhas da navegação na Internet meu Browse-Boat colidiu e eu descobri a Pitty e suas intrigantes letras. Adimirável Chip Novo e Adimirável Gado Novo mereceriam um DUO de IP (Interpretação Pessoal).

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  6. Thamirys, gostei muito! Essa música não sai da minha mente nos últimos dias e percebi, que sim, ela pode ter muitas interpretações, como para mim, é a transição de modo de olhar o mundo, as pessoas, a vida.Obrigada!

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  7. Adorei !! muito boa tua análise, menina. Bota esse blog em movimento novamente.

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  8. Parabéns pelo comentário!
    Nota 10!

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