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Interpretações, Significados e Análises de Letras de Músicas

O Assassinato da Flor

     Não sei se tanta gente gosta dessa música com a mesma intensidade que eu, mas O Assassinato da Flor, de Cazuza, me chamou a atenção desde a primeira vez em que a ouvi. Nela, Cazuza faz, brilhantemente, uma comparação entre as flores e as pessoas. Foi daí, inclusive, que me baseie para formular a interpretação de uma outra música, Flores, do Titãs.
     É uma música simples e profunda, bem ao meu gosto. Comecemos, enfim.
     O eu lírico, que tenho quase certeza ser também o compositor, começa a canção nos relatando algo que possivelmente lhe aconteceu centenas, quiçá milhares de vezes: as declarações de amores por parte de seus fãs, fãs estes que não mediam esforços para demonstrar o quanto admiravam, veneravam, endeusavam Cazuza. Neste caso, falamos de uma mulher que lhe traz flores.
     Cazuza, gentilmente, recebe a fã. Ora, poderia estar cansado por ter acabado de realizar um show, ou estar doente (afinal, artistas também adoecem, de vez em quando), mas fica tão entusiasmado ao saber da presença de alguém lhe trazendo flores que não espera que a fã chegue até ele, corre ao seu encontro.
     É então que começa a linda filosofia que há nessa canção.
     Partindo do pressuposto de que Cazuza compara as flores às pessoas, versos como "as flores não se tocam, vivem pra si e pros passarinhos e pro vento" (além de falarem naturalmente das flores) fazem alusão a alguém que rejeita quem o ama, que não percebe tal amor, que está sempre no seu mundo.
     Cazuza, no entanto, ainda fala de flores. Ele contesta a morte de seres vivos (as flores), usados como prova de amor (da fã em relação a ele mesmo). Ele questiona-se, chega a conclusão de que o "assassinato" da flor foi crime passional e, portanto, aceitável.
     É então que as comparações e relações flor/pessoa se mostram mais acentuadas. Flores e pessoas passam a ser sinônimos de "ser humano". É aí também que surge as demonstrações do amor doentio (onde Cazuza parece também incluir o fanatismo).
     Pessoas, naturalmente boas, vivem suas vidas plácidas até que toda a monotonia se quebra por alguém que diz amá-las. E bem, se é aceitável que matemos a flor em decorrência do amor, me dê motivos para não fazer o mesmo com um ser humano. Afinal, flores e pessoas são a mesma coisa!
     Sucedem os últimos versos inéditos:

De manhã cedinho, o sangue escorre.
Foi por amor
e o homem bom pratica o ato heroico.

     Segue-se a repetição do refrão, insistente em dizer "foi por amor o assassinato da flor". São versos que, agora, parecem mais uma tentativa de explicação. Foi por amor, é aceitável.
     O que Cazuza nos passa nesta canção não é nada que possa ser tido como uma lição. É apenas uma reflexão distorcida do que é o amor, sob a ótica de alguém com certos problemas. A ironia está no fato da canção nos deixar clara que o eu lírico é o próprio Cazuza. Ou seja, ele se apresenta como um fanático, que não compreende verdadeiramente o amor, o que me faz crer veementemente que ele entendia muito da coisa.

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9 comentários:

  1. Gostei muito da sua interpretação.Há tempos venho acompanhando o seu blog em silêncio,e o mais curioso(e que mais me cativa)é que as suas interpretações,na maioria,são de músicas de Renato(e sua legião)e Cazuza,que são meus compositores preferidos,são os maiores poetas do rock brasileiro(e pra mim os maiores da música brasileira).Parábens msm,espero que você continue desenvolvendo esse trabalho,para o bem dos legionários,"cazuzistas" e de todos aqueles amantes de músicas de qualidade.

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  2. Esqueci de pôr meu nome,a saber,Michael Alecksander.=D
    Paulista-PE

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  3. Michael Alecksander,
    Muito obrigada! Ultimamente estou muito feliz pelo fato de vários leitores estarem se revelando nos comentários. Não sabem como isso me estimula! Espero continuar produzindo conteúdo que te cative, que te atraia. Mas, em troca, peço que se manifeste, nem que seja pra dizer que "dessa vez não foi tão bom".
    Obrigada!
    A propósito, concordo muito com tudo que você falou aí.

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  4. Cara, eu estava pesquisando no google algo que falasse da letra dessa música, pois também acho-a fantástica. Encontrei seu texto, gostei muito da sua interpretação, você disse coisas que eu nem havia percebido, gostei muito! Valeu!

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  5. Parabéns pelo blog! Vou virar um frequentador assíduo, pode apostar!
    Estava ouvindo essa música nesse final de semana, parei para analisar a letra. É fácil notar que o eu lírico é o próprio Cazuza nas primeiras estrofes da música.
    "Toca o interfone
    Eu mando subir
    É alguém com flores e eu já fico a mil
    Morro de dores
    Da dor mais vil
    Mas corro até o elevador pra ser gentil"

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  6. essa múscia fala sobre aborto. ''demanhã cedinho o sangue escorre'''...aborto por remédios.

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    1. ???? Mas aonde está relacionado o amor com isso? Se alguém aborta uma criança é por que não tem amor ao feto...

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  7. Muito bom, assim como Pedro ali em cima eu estava a procura de algo assim (que interpretasse esta música) por que eu não acreditava que só eu achava que havia muito mais que um simples poesia bonitinha nesta letra afinal, estamos falando de Cazuza e não de qualquer um. Você seguiu exatamente a linha de raciocínio que o meu e foi até além e o fez com palavras simples e claras. Parabéns pelo blog!!

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  8. muito bom cara, pena que não temos o Cazuza para falar de sua obra com as suas próprias palavras,pra mim este foi o maior poeta que fez tanto em tão pouco tempo de vida, um grande coração onde coube todo o brasil !

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