quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Me Adora

     Uma das poucas representações do rock nacional inteligente atualmente é a Pitty. Apesar de muita gente não notar ou se interessar, a maioria das músicas dessa baiana são carregadas de muita crítica e personalidade. Um grande exemplo disso é a música Me Adora que, para muitos, parece ser apenas a história de uma mulher que se decepciona amorosamente, mas que é muito mais do que isso.
     Me Adora é uma resposta a todas as pessoas que julgam o trabalho de um artista como ruim, quando na verdade não conhecem sequer uma lista de dez músicas desse artista. Me Adora conta realmente uma história, é uma balada, mas uma história diferente daquela que muitos já têm em mente.

     Ao julgar um artista, diferentemente do que fazemos com outros profissionais, costumamos ser muito mais rígidos. E essa rigidez pode acabar transformando-se de uma crítica artística em uma agressão pessoal. E é uma agressão pessoal que sofreu o eu lírico dessa música.
     Podemos criticar e até mesmo ofender uma música, mas jamais um compositor. Ao ter sua obra classificada como ruim, um artista acaba decepcionando-se em ver que não agradou tanto quanto queria. Mas nenhuma decepção é tão cruel para um artista quanto a de ter seu nome desonrado pelo seu público de um modo que não cabe. É aqui que entra a primeira estrofe: "Tantas decepções eu já vivi. Aquela foi de longe a mais cruel. Um silêncio profundo e declarei: só não desonre o meu nome!".
     Um exemplo real disso é a banda Restart. Eu não gosto ou mesmo suporto a música que aqueles meninos fazem, pois é realmente muito ruim. No entanto, contrariando muita gente, não ofendo suas sexualidades, moralidades ou os ofendo de forma que venha a desonrar os seus nomes.
     "Você que nem me ouve até o fim, injustamente julga por prazer, cuidado quando for falar de mim e não desonre o meu nome.". O eu lírico considera extremamente injusto que alguém o julgue sem ao menos ouvir por completo uma música sua, que o faça por prazer, por achar conveniente. E adverte a quem faz isso: cuidado ao desonrar o nome alheio!
     "Será que eu já posso enlouquecer ou devo apenas sorrir? Não sei mais o que tenho que fazer pra você admitir que você me adora, que me acha foda. Não espere eu ir embora pra perceber.". O eu lírico nos relata um situação, até então, oculta na canção: as aparências que um músico ou outro artista qualquer precisa sempre manter por imposição da mídia, mesmo quando tem o nome denegrido e agredido por outras pessoas. E afirma ainda que, quem o julga sem argumentos concretos, na verdade, o admira muito como artista, profissional e pessoa. E, como para que provocar, pede ao interlocutor que admita logo que o adora, que o acha foda demais, antes que ele vá embora.
     "Perceba que não tem como saber. São só os seus palpites na sua mão. Sou mais do que o seu olho pode ver, então não desonre o meu nome." Continua dizendo que não pode ser julgado por suas canções, sua obra. Que, mesmo que uma música seja considerada "ruim", não há como saber se quem a compôs é ruim, que tudo que for concluído a partir de uma obra de arte é incerto, são palpites, pois a arte é abstrata. E todo artista é mais do que o que vemos em sua obra, todo ator é mais do que sua interpretação, todo pintor é mais do que seu quadro, todo músico é mais do que sua música. E, explicando isso ao interlocutor, pede outra vez que não desonre o seu nome.
     "Não importa se eu não sou o que você quer, não é minha culpa a sua projeção. Aceito a apatia se vier, mas não desonre o meu nome." Por fim, completa falando que a opinião de quem o julga é apenas um projeção pessoal que pode não corresponder à realidade e que, caso corresponda, não o fará mudar. Diz que aceita que não seja apreciado por todos, mas, como sempre, pede respeito, pede que não desonrem o seu nome, pois é mais do que o artista que se apresenta no palco, é um ser humano.

Sobre a Autora:
Thamirys PereiraThamirys Pereira tem catorze anos, é aluna do curso integrado ao ensino médio de Controle Ambiental no IFPB e idealizadora do Blog Interpretação Pessoal. Continue lendo sobre Thamirys Pereira ou Sobre o Blog Interpretação Pessoal.

6 comentários:

  1. "você é mais do que os olhos podem ver...", ouvi essa mensagem do filme "transformers" da dreamworks, e pra mim ela condiz muito com tua interpretação. Saindo um pouco da realidade "artística" aqui descrita por você, muitas pessoas não querem demostram quem são a todos por essa realidade fria dos críticos, o que você faz não significa o que você é, mesmo que seja uma atitude reprovável pelos julgadores, claro, você pode ser julgada uma vez que seja exposta sua obra. o que muitos críticos devem compreender é que você "é" muitas vezes é diferente do que você "faz"
    coloco garotas de programa com exemplo: é uma atitude tão reprovável ao vender seu corpo, que muitos críticos as julgam pelo que fazem e que acham que não existe a possibilidade do que ela é ser diferente daquilo, a necessidade entre outros motivos podem fazer que ela faça aquilo e que na verdade ela pode ter um coração de ouro. claro que muitas atitudes podem marcar o "ser" em todos os sentidos.
    Mente e coração são duas coisas distintas e seus julgamentos também devem ser destintos. a sua aparência deve ser amigável e um tanto submissa pra que o mal julgador não tenha razão de sua pessoa, (na sua consciência não), e como a "capa".
    A relação de implicância do julgador pode ser sim a capa de uma certa admiração, o que não garante que não possa ser puros comentários maldosos e frios nos sentidos "fazer" e "ser".
    você pode mudar o "fazer", sua atitude que pode fazer a diferença em muitas situações, mas nem você pode mudar o "ser", uma vez que já vem do mesmo.
    para os críticos, não é só o que você vê, mas o que o você não vê, é o que poucos conseguem sentir.
    são só opiniões pessoais, realidades podem ser outras. adorei Thamirys sua interpretação!!!
    (Anderson Santos)

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    1. Anderson, seus comentários vão sempre muito além de tudo. São tão característicos teus que eu já sei que são seus antes mesmo de ler a assinatura no final.
      Eu concordo com muito do que você diz. Entretanto, sem me estender muito, acho que as atitudes de uma pessoa falam muito sobre ela. Só isso a dizer sobre as suas análises...

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  2. Gostaria de ver mais interpretações da cantora Pitty aqui, pois ela é muito criticada e as pessoas não entendem o que suas letras querem transmitir, letras fortes, com palavras nas entrelinhas, blog muito bom, espero meu pedido ser atendido!;]

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    1. Obrigada pelos elogios, Vinícius José!
      Nesse mês de fevereiro o fluxo de posts vai aumentar bastante. É muito provável que eu publique muito mais coisa sobre a Pitty. Fique de olho, comente e verá que o seu pedido (que é também o de outros) logo será atendido.

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  3. Nusss, seu blog é ótimo, muito interessante suas interpretações, vou falar pra todos os meu amigos. Ainda ñ achei a interpretação de RAPTE-ME, CAMALEOA - Caetano Veloso , si ñ tiver ,vc poderia destrinchar essa letra. Obrigado

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    1. Oi, Bruno!
      É realmente muito boa a música. No entanto, creio que não seja uma boa interpretá-la aqui no blog. É que ela foi feita pra uma pessoa: Regina Casé. O Caetano adorava uma personagem que a Regina fazia numa peça. O nome da personagem era Camaleoa, então ele escreveu "Rapte-me, Camaleoa".
      Obrigada, continue comentando, sugerindo músicas (não se retraia pelo meu não) e sim, indique para os amigos!

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